Tudo na vida dela acabava em “L”s

Ela tinha-se licenciado em Literatura e Comunicação. No passado vivia rodeada de livros, papéis, história e estórias.
A vida dela deu voltas.
Hoje vive rodeada de écrans. De url’s, xml’s, html’s. Tudo agora na vida dela acaba em “L”s.
E no mundo dos “L”s quem reina são os ManeL’s, os MicaeL’s, MigueL’s.

Não era fácil. E para passar a frustração comia muitos pastéL’s.

Cada vez que tinha problemas com a aplicação X, telefonava aos X’s e eles diziam que a culpa era da aplicação Z. Ela ligava para os Z’s e eles diziam que a culpa era dos X’s.
Isto vezes sem conta. Vezes sem conta.
E ela comia os pastéL’s.
Vezes sem conta.

Até um dia em que ela agarrou no telefone. Ouviu uma voz do outro lado. Era um X.
E ela disse: “Estou farta de viver no meio desta testosterona informática.” Repetiu para o Y.
Vezes sem conta.
Até ao dia em que perceberam que ela não era nem L, nem X, nem Y.
Era ela. Simplesmente ela.

Uma rapariga de óculos, que gostava de livros, papéis, histórias e estórias…
E pastéis.

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“I don’t know anything about public relations. Who does?” And feelings. I asked.

O que fazer com os sentimentos?
Como viver num espaço privado e depois súbita e ininterruptamente num espaço público?
O que fazer aos sentimentos nesses hiatos de tempo?

Há expressões que me intrigam e sempre me intrigaram: porquê “homem cinzento” ou “homem de cinzento”?
“Homem cinzento” será aquele ser triste, melancólico, apagado, baço … sem aptidão para as relações públicas. Aquele que passa despercebido na sociedade.
Mas o “homem de cinzento” será o racional, o pensante, o bem sucedido, o auditor, o homem de negócios, o das finanças, dos números. E talvez sem (ou pouca) aptidão para as relações públicas. Mas este passa percebido e sublinhado na sociedade, apesar da cor sóbria do seu fato.

Em tempos conheci um “homem cinzento” que trabalhava para o “homem de cinzento”. O cinzento dele só desaparecia em dois momentos: quando se ria (raras as vezes) e à sexta-feira (dia em que deixava o fato em casa a arejar na marquise). Aí ele deixava de ser cinzento. E isso fascinava-me.

A uma segunda-feira, com medo perguntei-lhe como estava. Encolheu os ombros e tentou esboçar um sorriso amarelo. À terça fiz-lhe a mesma pergunta, e aí o esboço do sorriso já era cinzento. No dia seguinte a mesma pergunta e a mesma tonalidade de esboço. À quinta cansada, e com o barulho de fundo da máquina de café, sussurrei-lhe e perguntei-lhe ao ouvido “porque és tu assim?”.
E confessou-me, segredou-me, sussurrou-me ao coração “eu não tenho sentimentos. Em tempos uma mulher roubou-mos, trancou-mos numa caixa que deixou à minha porta. Sem chave”.
A máquina de café parou. O café já estava pronto.

A sexta-feira chegou e ele não estava de cinzento. Não tomou café nesse dia. E eu enquanto o via ao fundo do corredor pensei “quero tanto aquela chave”. O cinzento dele era para mim um mistério, uma atracção, um íman. E às sextas o mistério roçava a paixão. Queria tanto aquela chave.

Semanas mais tarde deixou de trabalhar para o “homem de cinzento”.
Nunca encontrei a chave. Mas o “homem cinzento” ficou guardado na minha caixa. E essa chave tenho-a eu.

Um “homem cinzento”, um public relations, sem public relations, sem sentimentos. Um homem com segredos, uma história que pode ser vossa, um cinzento que pode ser a vossa cor. Encontros e desencontros que podem ser vossos. E quantos já foram?
Afinal o que é a vida? E o que percebemos dela?

Simplesmente cliché.

Não quero falar de sentimentos. Ou talvez queira. Não quero falar de pessoas. Ou talvez queria.
Simplesmente não sei do que quero falar. E isso basta-me para escrever.
Só sei que quero falar, expressar-me, expurgar-me.
Só sei que quero sentir, levar a sentir.

A ideia surgiu-me numa viagem de comboio a caminho de casa, enquanto lia as seguintes linhas de W. M. Thackeray n’ O Livro dos Snobs (edição que não foi manchada pelo novo acordo ortográfico): “É de há muito minha convicção ter uma missão a cumprir – uma Obra, se quiserdes, com um O maiúsculo; um propósito a atingir; um vazio a preencher (…). Há anos que tal convicção me persegue. Encurralou-me, obstinada, nas ruas cheias de gente; sentou-se a meu lado na solidão do meu gabinete; empurrou-me o cotovelo no momento em que fazia um brinde em ocasião festiva; perseguiu-me pelo confuso labirinto de Rotten Row; acompanhou-me a terras longíquas. (…) a sua voz abafava o rugir do mar: aninha-se na minha touca de dormir e murmura: Acorda, dorminhoco, o teu trabalho ainda está por fazer.”

E, assim, naquela viagem de comboio a caminho de casa identifiquei-me com estas palavras deste snob. E conclui que quero ser espelho, reflexo, papel químico do que ouves, do que vês, do que sentes. Quero falar por falar. Quero escrever por escrever. Quero recordar simplesmente para viver, aproveitando o cliché.

Quero ser cliché simplesmente por ser. Afinal não o somos todos?